Sem Baseado em Fatos Reais – Parte II

– Como estamos?

– Ai, cara, vou dizer que tô pior que ontem…

– Sério? … Motivos?

– To mó triste, cara. Com a vida. Com o trampo. E receio acabar trazendo isso pra música também…

– Foda. Ontem eu estava cagando e me perguntando o tamanho da porra do meu vazio… Fiquei doente, voltei pra casa às três… Não tem nada mais triste que ficar doente morando sozinho… É a pior parte de morar sozinho… Aí adivinha quem aparece nessas horas, trazendo remédio e comida pra mim? Ela… ela foi embora e fiquei pensando: mas que puta que pariu!!!

– É, mó bosta… Cara…eu to tão infeliz, mas tão infeliz… Que tenho até medo de fazer besteira

– Cara… Não é por aí… Não podemos nos entregar… Melhorei muito… Tive uma crise parecida com a sua e me afundei mesmo… Mas a música, a poesia, literatura, amigos, comida… Tem coisas muito boas… Não dá pra ficar sem… É um processo normal, com 23 anos a gente estar sentindo isso… E acho que esse vazio tende a aumentar.

– Nem me fala uma coisa dessas! Eu não faço besteira porque não sou egoísta!

– A gente tá virando homem de verdade… É um processo de dor absurdo… Vou te mandar um texto sobre isso…

– Eu quero!

“O homem, quando jovem, é só, apesar de suas múltiplas experiências. Ele pretende, nessa época, conformar a realidade com suas mãos, servindo-se dela, pois acredita que, ganhando o mundo, conseguirá ganhar-se a si próprio. Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio. Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo na sua libérrima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua gratuita inutilidade. O começo da sabedoria consiste em perceber que temos e teremos as mãos vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo. Neste momento, a solidão nos atravessa como um dardo. É meio-dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma. Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o preço do encontro, do possível encontro com o outro. A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho do homem que merece o seu nome.”

– Acredito muito nisso…

– Nossa, eu também!

– Cara, tudo isso vai resultar em algo muito bom no futuro… Uma relação foda e sincera com alguém, um trabalho que lhe dê prazer… Sei lá… Eu acredito que esse sofrimento todo tem propósito.

– Espero muito que sim… Acredito que sim… Mas aí entro num paradigma: Não sei se quero dez anos de glória por cinquenta de inferno na terra.

– Inferno não é exagero? Eu acho que temos uma vida muito boa, na verdade, cara. A questão é que o ser humano é intrinsicamente triste… Todo mundo tem um vazio absurdo… Algumas pessoas, não é nosso caso, maquiam isso com religião ou outras fantasias… Nós tentamos maquiar com música, drogas, amores, amigos… Mas no fim é tudo inútil… O vazio permanece lá… É foda mesmo.

– Então!!!! Aí volta pro meu pensamento! Somos masoquistas!? Pra que?

– Mas o que seria de nós sem essas inutilidades?

– Exatamente! Porque temos que ser algo? E se elas são inutilidades, são inuteis! Não são necessárias! Se não somos… E se não precisamos de nada… Não existe razão para existirmos!

– Nossa, você chegou no ponto culminante… Precisamos conversar isso num bar… Tá ficando bom

– Ou será que elas são necessárias para não nos sentirmos inúteis… É tipo criar o belo e o feio… Um não existiria sem o outro

– Acho que não tem razão nenhuma mesmo… Mas eu não abriria mão de alguns prazeres… Eles são inúteis, mas porque as coisas tem que fazer sentido? Vivemos numa sociedade babaca que quer colocar esse sentido pra maquiar o vazio: seja um profissional competente, pegue as minas mais gatas, tenha o carro da moda, seja bonitão… É um artifício pra esquecer o quanto a vida é sem sentido… Se vc entra nessa se fode… A vida vira uma competição… Prefiro ficar na minha, ler meus livros, escutar minhas músicas, beber com meus amigos e construir relações verdadeiras com as mulheres que realmente me interessam… Sem pose… Sem esperar nada…

– Você tem razão. Eu ainda me sinto muito preso à muita coisa… Estou aprendendo agora a me desprender.

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Sem Baseado em Fatos Reais – Parte II

2 comentários sobre “Sem Baseado em Fatos Reais – Parte II

  1. Paula Duarte disse:

    Há cinco anos dei esse texto do homem, do vazio pro meu pai, ele tava passando pelos cinquenta. eu tava tentando encontrá-lo…até hoje. e encontro e perco tantas pessoas. e me encontro e me perco de mim tantas vezes. Há dois anos escrevo no meu gotulejando. Hoje acordei fininha…você escreve tão bem, sobre o que também tanto sinto. e me encontrar comigo em você é tão bom. o vazio então parece diminuir um pouco . saudade de você Gu. todo meu carinho (!) e respeito.

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