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O filho de 4 anos chega correndo do quintal do consultório do otorrinolaringologista que já atende a família há décadas. Cadarços desamarrados, ele adentra a porta de vidro alegre e saltitante, ruma para o sofá, onde seu pai e sua mãe aguardam lendo revistas velhas de celebridades ou náutica, alternadamente. Com a sinceridade que a infância lhe confere, o garotinho desata a falar:

– A mamãe é linda! A mamãe é bunita! A mamãe é bunita! A mamãe é a mais bunita di todas!

Meio sem graça perante os demais pacientes que aguardavam na mesma sala, a mãe gira a cabeça fazendo um apanhado geral de sorrisos amarelos, como se dissesse “hehehe, me desculpem” e, ao mesmo tempo, vistos de outro ângulo, estes mesmos sorrisos diziam orgulhosos que “é meu menino”. O menino continua a vangloriar sua progenitora:

– A mamãe é bunita! A mamãe é muito bunita!

O pai entra na brincadeira e pergunta igualmente sorridente, sem constrangimento, como se conhecesse a natureza de seu filho:

-Tá bom, filho, o que você quer agora? Fala pro papai e pra mamãe!

O menino feha a cara, dá meia volta, e volta a brincar no jardim. Os pais ficam sem graça.

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