Peso pena

Tinha um muro com um buraquinho
Decidi olhar só um pouquinho
Bem devagarzinho
E então, com muito cuidado
Muito cuidado, muito cuidado e atenção

Percebi que o furo se abria
No desenrolar da melodia
Pus-me a cantar
Pra ver no que ia dar

Quando cantei aquela canção
Pra fazer do furo um buracão
Um belo dum furão
Eu vi do outro lado
O outro lado que era do lado que eu sonhei

Tinha um poço fundo dos desejos
Onde desejei aquele beijo
E ali cê me acertou
Ali me cativou
E Foi só uma moeda que custou seu coração

Umidade

Choveu, eu nem vi

Ela não veio, chovi

Achei que era bom

Enjoado
queria deitar
Eu fui tomar café da manhã para me sentir melhor
mas acho que não adiantou
comi salada de frutas
suco de laranja
e um pãozinho com manteiga na chapa com requeijão muito gostoso:
-Mas chuuu, como voce toma leite e depois suco de laranja, pô!
- Achei que era bom
o leite
aí vc disse que não era
e depois achei que era bom o suco de laranja

O que é palpável

Na trilha da estrada de vento, fim de tarde

Andando por entre as madeixas douradas que o sol trouxe pela manhã

E só é possível distinguir as sombras contra a luz

Se puder encarar o horizonte, franzindo a testa

Abrindo os braços e voando na brisa fresca

E as folhas que lhe batem não se atrevem a exceder a sensação de cócegas

E nada mais há

De quem gosta e disfarça

- Estou bravo com o mundo

- O que ele fez?

- Ela

-Então estou brava com o mundo

-O que ele fez?

-Eu

Te de Chuco (Chá de Gu)

Te faço massagem
Te gosto de rosa
Te tenho em meus modos
Te conto uma prosa
Te enlaço em meu braço
Te levo pro parque
Te mostro o meu mundo
Te dou badulaques
Te foco na foto
Te trago em meu ar
Te canto meu som
Te vejo cantar
Te espero afoito
Te espero pra gente
Te espero em silêncio
Te espero contente
Te deixo meu riso
Te encho de beijos
Te quero demais
Te echo de menos

O ciclo da agonia

Quero chorar

Mas meus olhos têm medo de água

E meus ouvidos preferem o silêncio

E aí vem o choro calado

Que dá nó no coração

E a cada nó, o coração vai se transformando num cérebro

Vez ou outra ele pensa e se lembra

Que ainda pode ser coração

Embora cheio de nós

Eu me vejo farto de nós

E encontro na solidão a insuportável companhia dos meus pensamentos

E gosto por um tempo

Acanhamento

Com um sorriso, descanso e já tranço algum laço
Num abraço, balanço e me lanço ao paraíso
E num colo, vou manso e abraço o juízo
E no beijo eu alcanço, enfim, desembaraço

Boa idade, bondade!

-Vamos brincar de caça ao tesouro?…Mas é só para adultos e velhinhas!

-Sim!

-Vamos!

-Não!

-Ai, eu estou meio cansado, não vou não!

-Está bem então, vou guardar dois ovinhos para vocês dois. Gente! Gente! Separa dois ovinhos para eles que eles não vão brincar!

Ao Vina

O amor não é bom não

Bom é paixão

Quando a paixão vai embora o amor fica triste

(Ao grande poeta Vinícius de Moraes)

Teoria da Relatividade

Leve é o vento que leva o graveto
Leve é o graveto que leva o inseto
Leve é o inseto que caminha lento
Caminhe lento! Caminhe lento!

Leve é o noneto que toca Hermeto
Leve é o invento que leva o soneto
Vivo instrumento bom de ouvir de perto
Me leve um soneto! Me leve um soneto!

Leve é um cento quando é um metro
Ainda que certo, não chega nem perto
Do processo lento que é abrir o peito
Querendo um afeto e ganhando um veto

O vermelho e o negro

O coração anda sempre no presente
Só vira uma lembrança
Que ainda e ainda sente
E ainda… porque mente
Pois na mente, resta a vinda
De um agora que está ausente

O vazio me inspira (2)

O vazio me inspira
A tripa é o âmago do âmago
Mas o âmago é vazio
E a tripa é vento frio
Chicoteia dorsos pálidos
Em busca de um algo esguio

O vazio me inspira

A vida é um colégio onde a nota para passar de ano é 3,5

Motivo para sorrir

A pior solução é aquela que existe e está longe
A pior certeza é aquela que não tem soluções
A pior dúvida é aquela que não tem certezas
A pior vida é aquela que não tem dúvidas
A pior sensação é aquela que não tem vida.
Eu sinto e vivo.

Da necessidade de se relacionar

É na solidão
Que entorno o copo dos defeitos
Sobre meu corpo
E com inexatidão
Constato meus pecados
Para não me sentir morto

Relacionar-me em outro mundo
Requer muito cuidado
Pois sou oriundo
De um insosso passado

Desculpas y Descompás

Tengo que decir
Pero no con mi saber
Qué he dicho cosas
Que no se pueden decir
Es cobardía
No me puedes entender

Me lamento,
Ahogarme en mi soledad
Es lo mejor, mi solución es la verdad
Y esta lo es:
Soy cobarde

Tuvo que decir
No en el portugues
Para todo lo que hablo
Tenga como asemejar
Con lo mismo descompás
Que entendió mis palabras

Desculpe

Ahora solo me quiero sentar
Sentir

Te tengo tan cerca
Te quiero más cerca
Te tengo tan lejos
No se, nada se

Rosa e tal

Canta, que encanto que lança
No entanto me alcança
Um enlace veloz

Cabe uma prosa, uma dança
Uma valsa criança
Faz que fez uma foz

Vence os teus medos
Cante os seus modos
Mude um segredo de mundo
E de cor

Pinta com mãos, olhos, e o que mais tem
Sente o verão rosa por onde vem

Algo cor de rosa e tal

Questões do menininho

Uma nuvem é só um montão de algodão
Mas como fica em cima
Se, quando eu tento, cai no chão?

Vai ver tem um moço altão
Ou alguém que empina
Ou vai de balão

Mas também pode ser
Que, do nada, no céu
começa a crescer

Quem sabe vem de Plutão
Ou de micro-ovelhas do ar
De onde vem o algodão?
São caspas de um ser estelar?

Vai ver é uma reação
Das gotinhas com o céu
Quando o sol toca o chão

Quem sabe um grande tricô
De mil velhinhas azuis
Ou o lado albino do cocô
Quando visto bem perto da luz

O fim do show e o fim do sexo

-Geme, geme!
-Uuuuh!
-Geme, geme!
-Aaahh!

Silêncio…

Apagou o palco.
Insistiu um pouco
Entendeu a polca
Tudo ficou rouco

E uma euforia sem precedentes invadiu a goela.

Tomando as dores

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Se a velha guarda da MPB fosse o elenco de Malhação

Os garotos das turminhas da época adolescente, na época da definição da identidade cultural no Brasil, salvo períodos de trégua, se dividiriam em cinco:

a) os almofadinhas nerds melosos (Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Toquinho, Chico Buarque, Edu Lobo, etc…);
b) os hippies lesados lisérgicos (Os Mutantes, Tim Maia, Lobão, Raul Seixas, Jorge Ben Jor, etc…);
c) os pansexuais metidos a ator (Caetano Veloso, Gilberto Gil, Ney Matogrosso, Cazuza, etc..);
d) os caipiras ingênuos (Milton Nascimento e todo o Clube da Esquina);
e) os pobrinhos analfabetos (Cartola e Adoniran Barbosa);

O Bar do Veloso, recinto onde foi composta a Garota de Ipanema, seria o Gigabyte.

Sem ofensa.
Com licença…
…poética.

OBSERVAÇÃO IMPORTANTE: Este post foi redigido baseando em uma visão estereotipada de um personagem fictício e semi-ignorante direitista nascido em 14 de outubro de 1902.

Cybernat Kemins Pireaux

Meu prisma não desfoca, refrata. Tange cada feixe em um polo, descentralizando o poder da luz, com direito a linha de chegada no infinito. A rosa-dos-ventos já não atende mais por esta alcunha. Verde-amarela-azul-e-rosa-das-brisas! Transpareça meu ufanismo mudo! Minha tarefa não é limpá-lo, mas fazê-lo funcionar ao revés. Mais ainda, fazer valer um mutualismo entre cada raio de sol, transformando a realidade social da luz. É pura utopia e é depressivo. Essa é a mancha do meu prisma, mas eu ainda o trato como diamante.

Destrói ter

Quando se pisa em falso, pronto,
ele já foi pra nunca mais voltar.
E pode destruir sonhos.
É preciso olhar nos olhos
para vê-lo crescer ou fugir.
É preciso ter olhos.
É preciso ter rosto.
É preciso ter cara.
Ter cara.
Cara ter.
Caráter.

Teoria da preguiça de pensar

Entre o pensar e o agir
Há o tempo e o maniqueísmo
E os opostos que se atraem
Metamorfoseando à uma ação impensada
Ou a um pensamento sem ação

Contudo, não agir
Em detrimento de pensar
Comporta duas faces
Separadas pelo tempo
Se é longo, ação não há
Se inexiste, pode se chegar a uma atitude consciente

Preguiça de pensar

Até o silêncio

Fica o que toco e o que me toca
Se o som para, parece só nada,
pareço só,
Até o silêncio,
foco o que toca na minha nota
Nenhum tom, no fim,
É só um triste vão em mim
Que bate cegas palmas de foca

A sub-mesa

Era uma família tão pobre
Tanto quanto era grande
Tanto como um nobre canto
Sabe tocar um velho berrante
Na imensidão do céu vermelho
e tornar o rubro cobre

Sempre tinha por hábito
De quando em vez, mas sempre
Um prato a menos pro hálito
E um único docinho flácido de calor,
rude e mesquinho
E um filho a mais no ventre

Por lógica, a refeição
Demandava um dente por prato
Também um por coração
Forçando a única porção do dia, de fato,
ser o doce que ninguém queria
Assim sucedia o trato

E a vida reservou um jeito:
Sub-vida! Sem reservas à mesa!
E o doce soava ruim
A quem só queria brócolis
porque viver longe das metrópoles
Faz do prazer cruel certeza

Gota da fronte

A doutora operava um experimento novo com o renomado doutor, onde nove grãos de areia de densidades diferentes seriam expostos ao calor. De tamanhos variados, foram dispostos linearmente em distâncias aleatórias do centro de calor, de modo que, se imaginada uma rota que circundasse a fonte, não se encostariam. Fora uma idéia dele, que conquistou a credibilidade da doutora com facilidade, e os levou animados ao início da fase de hipótese.
Sempre, com todo o cuidado demandado, administravam temperatura que julgavam suficiente, umidade, e todas as circunstâncias que lhes convinham em cada um dos nove grãos. No terceiro grão, decidiram que uma bolha de ar envolveria toda sua esfera. No segundo dia de experimento, descargas elétricas foram sendo disparadas e, gradativamente, a umidade foi elevada para fins científicos em alguns dos controles.
Foi no terceiro dia que um fato notório impressionou os cientistas: proteínas surgiram em alguns pontos do grão, e sua reação química fez nascer algo que nunca haviam visto antes. Tinha movimento. Diversas formas pareciam fazer do grão um emaranhado de coisas que se mexiam muito lentamente.
Após seis dias de experimento, ambos tiraram o dia de folga, pois o plantão havia sido intenso, muito trabalho fora feito. Mal poderiam imaginar que, ao retornarem na segunda feira, o grão estava acinzentado, e a bolha fora rompida. As formas começaram a se tornar resistentes aos gases de dentro da bolha e desenvolveram capacidade cognitiva.
Desesperados por não conhecer a índole desses seres, os doutores pensaram que aumentando a temperatura intimidariam as formas vivas. No relatório, escreveram:

“Após milhões de anos, as formas vivas se tornaram incontroláveis. Após uma tentativa de mudar o ambiente do experimento Terra, todas as formas vivas morreram. O procedimento foi eliminar o controle Terra do grupo”

Poema de Carolina Rosenthal

Ganhei um poema! Olha que chique! Obrigado, Carol, guardei com carinho!

“Hoy es mi última noche

y ya me dio tristeza

No pensé que mi estadía

fuera pequeña como cereza


Las personas son muy simpáticas

y siempre estan alegres

Espero que si vuelvo

Mantenga la misma gente


Conoci un amigo brasilero

Que escribe de forma curiosa

Me enseño como un diccionario

Y hasta aprendi a decir “nossa”


Sabe que será siempre mi amigo

Si nos vemos o nos vemos

Puedes contar conmigo

pues mi corazón también es Brasilero.


Con cariño

de sua

amiga

Carol (CHILE)”

Tive direito até à bandeirinha do chile desenhada com montanhas nevadas e um sol ao fundo. Emocionei.

Alegrinha

Alegrinha assim

Caía de cara e insistia em sorrir

Porque valia mais a experiência

E morreu alegre

Alegre e atropelada

Nova terapia

Dois vícios lhe surravam

Bebida e falta de personalidade

Frequentava reuniões para se livrar de algum

Inútil.

 

Passou um tempo

Trocou os Alcoólicos Anônimos pelos Alcoólicos Homônimos

Onde todos eram André

 

Se encontrou um André diferente dos outros

E largou a falta de personalidade

Era todo bebida

Buraco

Cuidado que o buraco
Não é preto nem fundo
Não se cai nele pro mundo
Não é para fracos
Não se sai dele pra vida
Não é nenhum refúgio
Nem subterfúgio
Tampouco a saída

Buraco não é machucado
Nem orifício de puns
Como só é pra alguns
Não faz estrago

Cai dentro de si
E vira um nada moribundo
À espera de outro mundo
Que está logo ali

É que não se vê esse cenário
Ou o momento que se vive
Só se vale do ourives
Quando o ouro é necessário

Buraco é só um achado
Encoberto de cores
Que esconde os amores
E os previne calado

Sintética da vida

Viver é cansar e descansar
Amar e desamar
Até morrer

Poder na língua do “p”

Podre do poder: poder por peso para pensar!

Pera! Pé no piso para poder por pernas, pingos, pontos, pernas.
pernas, pingos, pontos, pernas.
pernas, pingos, pontos, pernas.
Pfff!
Ponta de poesia pede parada…

…podia pintar pontos pontilhados…

…porque passaria a ponta podendo procriar…

…procriar…

Procriar…

Procriar…

É poder!

Cantando a menina no jardim da infância

Fiz um origami de flor
Espetei com palito na maçã
E pus na lancheira

Peguei dois lápis de cor
Roubei uma chuquinha da irmã
E um imã rosa da geladeira

Fiz topete, passei gel
Pra impressionar
Cheguei antes, me sentei, guardei lugar

Peguei tudo,
Lápis, maçã, origami, imã,
Lancheira, chuquinha, palito

Fiquei mudo
Ela chegou, linda, de vestidinho
Pensei:
-Menino, sossega o pito!

Cada coisa, cada uma
Voltou para onde estava
Até minha coragem

Tirei o gel, sonhei com ela
E aí a gente ficava brincando de jardim
Empurrava ela no balanço
Ela voltava rindo, e eu era forte
Nunca cansava de empurrar

Acordei, Fiz um origami de flor
Espetei com palito na maçã
E pus na lancheira

Peguei dois lápis de cor
Roubei a chuquinha da irmã
E o imã rosa da geladeira…

da série Oito Oitenta

1. Ao artista

Contenho uma incontinência de alma
É tanta alma que o corpo perde a calma
E é tanta calma que a vida bate palma

2. Ao infante

Eu guardo inquietude nas mangas
E as mangas não correspondem
Só se dão ao trabalho de guardar sovacos

3. Ao amigo

Carrego comigo um sigo
E sigo comigo a um descarrego
Descarrego consigo todo migo
E amigo, consigo seu apego

Hipocrisia mundana

A faca é a louça mais rápida para lavar
A roupa íntima é a roupa mais rápida também
Se bem que tem as meias,
Mas duas meias é mais que uma calcinha

Da série “Coisas que fazem falta”

Conheci uma moça onomatopéica
Sugeri uma troca desigual
Eu dou muita risada
Ela me dá muita saudade

Urbana

Seus pezinhos pequeticos

Eram do tamanho

De três pedrinhas brancas

De piso de calçada

De mosaico português

Só que de gente, não de pedra

Para o café da manhã

Eu sou um banana

Amassado com aveia

E mel

Rosa

-Rosa

-Que lindo isso

-Isso o que?

-Rosa

-Agora?

-Que lindo, vamos escrever!

-A gente não escreveu

-A gente tava se beijando.

Bia ia

Bia ia

E nunca mais voltava

E nunca mais sabia

Se ela se ancorava

Numa idéia vazia

Ou se era estampada

Numa parede fria

De cores caladas

Bia via

Que era madrugada

Que era quase dia

E já não prestava

Seu relógio lia

Uma breve soada

E Bia em agonia

Inda estava atada

Bia lia

Nada como estava

Letras em folia

Tintas rabiscadas

Não eram mais frias

Nem organizadas

E em psicoldelia

Fechou a empreitada

Na surdina

Quando eu quero cantar

Não há quem possa despertar em mim

Alguma outra emoção melhor

Para o meu coração

Então me ponho a repetir

Seu nome assim

 

Assim com ares de quem sabe

O que vem por aí

Fale de mim para ninguém

Melhor assim pra ti também

O que acontece por aqui

Só cabe a nós

 

Vem

Mas vem bem de mansinho

Pisa bem de fininho

Que é pra gente se amar em paz 

Vem

Mas vem sem cochichar

Que eu também hei de olhar

Pela fresta pra nos poupar

Quando eu quero cantar

Não há quem possa despertar em mim

Alguma outra emoção melhor

Para o meu coração

Então me ponho a repetir

Seu nome assim

Feliz

O Mundo Bondeia

Eu queria que o mundo parasse por uns anos. Só pra mim, e só pra sempre. É que eu puxei a cordinha há uns pontos atrás, e ele não parou. Os freios estavam gastos.

Antes, quis descer porque era o lugar para onde queria ir. Agora, quero descer para ir a qualquer lugar. Espero que encontre alguém que me guie.

Só precisarei de uma mãozinha. Um colinho. E quem sabe um cafuné. Depois, acharei que este ponto é aquele que eu queria ter descido há alguns pontos atrás.

Sem Baseado em Fatos Reais – Parte II

- Como estamos?

- Ai, cara, vou dizer que tô pior que ontem…

- Sério? … Motivos?

- To mó triste, cara. Com a vida. Com o trampo. E receio acabar trazendo isso pra música também…

- Foda. Ontem eu estava cagando e me perguntando o tamanho da porra do meu vazio… Fiquei doente, voltei pra casa às três… Não tem nada mais triste que ficar doente morando sozinho… É a pior parte de morar sozinho… Aí adivinha quem aparece nessas horas, trazendo remédio e comida pra mim? Ela… ela foi embora e fiquei pensando: mas que puta que pariu!!!

- É, mó bosta… Cara…eu to tão infeliz, mas tão infeliz… Que tenho até medo de fazer besteira

- Cara… Não é por aí… Não podemos nos entregar… Melhorei muito… Tive uma crise parecida com a sua e me afundei mesmo… Mas a música, a poesia, literatura, amigos, comida… Tem coisas muito boas… Não dá pra ficar sem… É um processo normal, com 23 anos a gente estar sentindo isso… E acho que esse vazio tende a aumentar.

- Nem me fala uma coisa dessas! Eu não faço besteira porque não sou egoísta!

- A gente tá virando homem de verdade… É um processo de dor absurdo… Vou te mandar um texto sobre isso…

- Eu quero!

“O homem, quando jovem, é só, apesar de suas múltiplas experiências. Ele pretende, nessa época, conformar a realidade com suas mãos, servindo-se dela, pois acredita que, ganhando o mundo, conseguirá ganhar-se a si próprio. Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio. Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo na sua libérrima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua gratuita inutilidade. O começo da sabedoria consiste em perceber que temos e teremos as mãos vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo. Neste momento, a solidão nos atravessa como um dardo. É meio-dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma. Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o preço do encontro, do possível encontro com o outro. A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho do homem que merece o seu nome.”

- Acredito muito nisso…

- Nossa, eu também!

- Cara, tudo isso vai resultar em algo muito bom no futuro… Uma relação foda e sincera com alguém, um trabalho que lhe dê prazer… Sei lá… Eu acredito que esse sofrimento todo tem propósito.

- Espero muito que sim… Acredito que sim… Mas aí entro num paradigma: Não sei se quero dez anos de glória por cinquenta de inferno na terra.

- Inferno não é exagero? Eu acho que temos uma vida muito boa, na verdade, cara. A questão é que o ser humano é intrinsicamente triste… Todo mundo tem um vazio absurdo… Algumas pessoas, não é nosso caso, maquiam isso com religião ou outras fantasias… Nós tentamos maquiar com música, drogas, amores, amigos… Mas no fim é tudo inútil… O vazio permanece lá… É foda mesmo.

- Então!!!! Aí volta pro meu pensamento! Somos masoquistas!? Pra que?

- Mas o que seria de nós sem essas inutilidades?

- Exatamente! Porque temos que ser algo? E se elas são inutilidades, são inuteis! Não são necessárias! Se não somos… E se não precisamos de nada… Não existe razão para existirmos!

- Nossa, você chegou no ponto culminante… Precisamos conversar isso num bar… Tá ficando bom

- Ou será que elas são necessárias para não nos sentirmos inúteis… É tipo criar o belo e o feio… Um não existiria sem o outro

- Acho que não tem razão nenhuma mesmo… Mas eu não abriria mão de alguns prazeres… Eles são inúteis, mas porque as coisas tem que fazer sentido? Vivemos numa sociedade babaca que quer colocar esse sentido pra maquiar o vazio: seja um profissional competente, pegue as minas mais gatas, tenha o carro da moda, seja bonitão… É um artifício pra esquecer o quanto a vida é sem sentido… Se vc entra nessa se fode… A vida vira uma competição… Prefiro ficar na minha, ler meus livros, escutar minhas músicas, beber com meus amigos e construir relações verdadeiras com as mulheres que realmente me interessam… Sem pose… Sem esperar nada…

- Você tem razão. Eu ainda me sinto muito preso à muita coisa… Estou aprendendo agora a me desprender.

Sem Baseado em Fatos Reais – Parte I

- Você está melhor hoje?

- Não, cara. To até com dor no peito. To até pior que ontem

- Ai, meudeusdocéu…Vai ficar tudo bem, vai passar, cara… Força

- Eu tenho força, mas continuo triste. Não é possível que não exista uma saída para o trabalho

- Essas coisas são assim mesmo, é foda…

- Então porque a gente continua querendo viver isso? O ser humano é masoquista. Eu não sou nem um pouco. Aí tem uns caras que se suicidam… E dizem que eles é que gostam de sofrer, de doer. O que é toda essa dor? …O que é a verdadeira tortura? E então eu chego à conclusão que o ser humano realmente é masoquista. Porque inventaram a religião para terem medo…Que é outra dor. Porque não o fazem por causa dos outros, e não por sua própria causa. E eu sou como eles… Como nós

Não Adianta

Não me olha assim
Com olhos seus
Exigindo uma explicação
Sobre algo que você criou

Pra depois vir
De véu rancor
Descontar uma invenção
Que não se sucedeu

Vem, pede pra mim
Desmentir um desacontecimento
Mas não fui eu

Tim tim por tim tim
Lhe remeto notícias de mim
Em vão

Não faz assim
Prometo dizer a verdade
Mas, pra você, a verdade só mente a verdade
Pra mim, nada mais que a verdade

Vai vendo

O menino era um qualquer
mas entrou na peça da escola
A menina, do balé, desde mais menina
Recital no mesmo dia, e eram irmãos

Papai acorda, mamãe acorda
Tem bilhete na geladeira
Preso com imã de fruta amarela

Um bilhete, do menino, que dizia:

“Mamãe e Papai,
[com letra maiúscula]
Vem ver eu na escola
Tem apresentação
Leva a máquina fotográfica
Pois se não vier, vai ver”

O outro, mais singelo, reforçava:

“Mamãe e Papai,
[também com letra maiúscula]
ele é bobo
vem ver eu”

Deram as mãos, os pais divididos
Olharam-se, e voltaram a olhar para o imã
De fruta amarela

A mãe pegou uma banana
Sugeriu
Subiram as escadas
Fizeram outro filho

Sabe?

sabe aqueles dias?

não “aqueles”, como “aqueles” das mulheres

só Aqueles, com o “a” maiúsculo

e a vontade minúscula

então…

Farol Vermelho

Ela está sentada ali
A me fitar, a me medir
Mede um relógio, mede um anel
Não cansa de perguntar com as mãos, com a boca muda, com o olhar
Se tem moeda, se tem trocado
E eu fingindo estar ocupado

Levanta-se então bem depressa
E um roto que lhe cobre a testa
Balança na brisa e avisa da dança
Pros bolsos da minha camisa

Faço que esqueço, faço um protesto
Mão no volante, outra na testa
Enxugo as sobras de consequência
Isso é obra da consciência!
Apanho migalhas brilhantes
Do bolso direito
Do jeito errado

Estendo a mão
Sou quem convida
Quem anuncia
Mais uma gota
De sub-vida
À alma-ida

Assumo a dança, e eis que então
Se aproxima com a cobiça em cada mão
Nas unhas sujas, na carne suja, na boca suja:
-Valeu, patrão!

E com as pontas dos dedos
Bem devagar
Afaga meu retrovisor esquerdo
Entristece o olhar
Num segundo inclina a cabeça
Estende sua mão para dentro
Apanha uma nota depressa

O farol desamadureceu
Eu me vou, cercado de breu

E enquanto me afasto
Eu noto no asfalto
Que os brancos dos seus olhos
Refletem no óleo da rua

No alto, na lua
Nem lembram que um dia existi

E enquanto me afasto
Eu noto no asfalto
Que os brancos dos olhos
Refletem o álcool

E o salto pro alto
Pr´além do real
Tô passado com o que está por vir

E meio que morri

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