Alegrinha assim
Caía de cara e insistia em sorrir
Porque valia mais a experiência
E morreu alegre
Alegre e atropelada

Alegrinha assim
Caía de cara e insistia em sorrir
Porque valia mais a experiência
E morreu alegre
Alegre e atropelada
Dois vícios lhe surravam
Bebida e falta de personalidade
Frequentava reuniões para se livrar de algum
Inútil.
Passou um tempo
…
Trocou os Alcoólicos Anônimos pelos Alcoólicos Homônimos
Onde todos eram André
Se encontrou um André diferente dos outros
E largou a falta de personalidade
Era todo bebida
Cuidado que o buraco
Não é preto nem fundo
Não se cai nele pro mundo
Não é para fracos
Não se sai dele pra vida
Não é nenhum refúgio
Nem subterfúgio
Tampouco a saída
Buraco não é machucado
Nem orifício de puns
Como só é pra alguns
Não faz estrago
Cai dentro de si
E vira um nada moribundo
À espera de outro mundo
Que está logo ali
É que não se vê esse cenário
Ou o momento que se vive
Só se vale do ourives
Quando o ouro é necessário
Buraco é só um achado
Encoberto de cores
Que esconde os amores
E os previne calado
Viver é cansar e descansar
Amar e desamar
Até morrer
Podre do poder: poder por peso para pensar!
Pera! Pé no piso para poder por pernas, pingos, pontos, pernas.
pernas, pingos, pontos, pernas.
pernas, pingos, pontos, pernas.
Pfff!
Ponta de poesia pede parada…
…
…
…
…podia pintar pontos pontilhados…
…
…
…
…porque passaria a ponta podendo procriar…
…procriar…
Procriar…
Procriar…
…
…
…
É poder!
Fiz um origami de flor
Espetei com palito na maçã
E pus na lancheira
Peguei dois lápis de cor
Roubei uma chuquinha da irmã
E um imã rosa da geladeira
Fiz topete, passei gel
Pra impressionar
Cheguei antes, me sentei, guardei lugar
Peguei tudo,
Lápis, maçã, origami, imã,
Lancheira, chuquinha, palito
Fiquei mudo
Ela chegou, linda, de vestidinho
Pensei:
-Menino, sossega o pito!
Cada coisa, cada uma
Voltou para onde estava
Até minha coragem
Tirei o gel, sonhei com ela
E aí a gente ficava brincando de jardim
Empurrava ela no balanço
Ela voltava rindo, e eu era forte
Nunca cansava de empurrar
Acordei, Fiz um origami de flor
Espetei com palito na maçã
E pus na lancheira
Peguei dois lápis de cor
Roubei a chuquinha da irmã
E o imã rosa da geladeira…
1. Ao artista
Contenho uma incontinência de alma
É tanta alma que o corpo perde a calma
E é tanta calma que a vida bate palma
2. Ao infante
Eu guardo inquietude nas mangas
E as mangas não correspondem
Só se dão ao trabalho de guardar sovacos
3. Ao amigo
Carrego comigo um sigo
E sigo comigo a um descarrego
Descarrego consigo todo migo
E amigo, consigo seu apego
A faca é a louça mais rápida para lavar
A roupa íntima é a roupa mais rápida também
Se bem que tem as meias,
Mas duas meias é mais que uma calcinha
Conheci uma moça onomatopéica
Sugeri uma troca desigual
Eu dou muita risada
Ela me dá muita saudade
Seus pezinhos pequeticos
Eram do tamanho
De três pedrinhas brancas
De piso de calçada
De mosaico português
Só que de gente, não de pedra
Eu sou um banana
Amassado com aveia
E mel
-Rosa
-Que lindo isso
-Isso o que?
-Rosa
-Agora?
-Que lindo, vamos escrever!
-A gente não escreveu
-A gente tava se beijando.
Bia ia
E nunca mais voltava
E nunca mais sabia
Se ela se ancorava
Numa idéia vazia
Ou se era estampada
Numa parede fria
De cores caladas
Bia via
Que era madrugada
Que era quase dia
E já não prestava
Seu relógio lia
Uma breve soada
E Bia em agonia
Inda estava atada
Bia lia
Nada como estava
Letras em folia
Tintas rabiscadas
Não eram mais frias
Nem organizadas
E em psicoldelia
Fechou a empreitada
Quando eu quero cantar
Não há quem possa despertar em mim
Alguma outra emoção melhor
Para o meu coração
Então me ponho a repetir
Seu nome assim
Assim com ares de quem sabe
O que vem por aí
Fale de mim para ninguém
Melhor assim pra ti também
O que acontece por aqui
Só cabe a nós
Vem
Mas vem bem de mansinho
Pisa bem de fininho
Que é pra gente se amar em paz
Vem
Mas vem sem cochichar
Que eu também hei de olhar
Pela fresta pra nos poupar
Quando eu quero cantar
Não há quem possa despertar em mim
Alguma outra emoção melhor
Para o meu coração
Então me ponho a repetir
Seu nome assim
Feliz
Eu queria que o mundo parasse por uns anos. Só pra mim, e só pra sempre. É que eu puxei a cordinha há uns pontos atrás, e ele não parou. Os freios estavam gastos.
Antes, quis descer porque era o lugar para onde queria ir. Agora, quero descer para ir a qualquer lugar. Espero que encontre alguém que me guie.
Só precisarei de uma mãozinha. Um colinho. E quem sabe um cafuné. Depois, acharei que este ponto é aquele que eu queria ter descido há alguns pontos atrás.
- Como estamos?
- Ai, cara, vou dizer que tô pior que ontem…
- Sério? … Motivos?
- To mó triste, cara. Com a vida. Com o trampo. E receio acabar trazendo isso pra música também…
- Foda. Ontem eu estava cagando e me perguntando o tamanho da porra do meu vazio… Fiquei doente, voltei pra casa às três… Não tem nada mais triste que ficar doente morando sozinho… É a pior parte de morar sozinho… Aí adivinha quem aparece nessas horas, trazendo remédio e comida pra mim? Ela… ela foi embora e fiquei pensando: mas que puta que pariu!!!
- É, mó bosta… Cara…eu to tão infeliz, mas tão infeliz… Que tenho até medo de fazer besteira
- Cara… Não é por aí… Não podemos nos entregar… Melhorei muito… Tive uma crise parecida com a sua e me afundei mesmo… Mas a música, a poesia, literatura, amigos, comida… Tem coisas muito boas… Não dá pra ficar sem… É um processo normal, com 23 anos a gente estar sentindo isso… E acho que esse vazio tende a aumentar.
- Nem me fala uma coisa dessas! Eu não faço besteira porque não sou egoísta!
- A gente tá virando homem de verdade… É um processo de dor absurdo… Vou te mandar um texto sobre isso…
- Eu quero!
“O homem, quando jovem, é só, apesar de suas múltiplas experiências. Ele pretende, nessa época, conformar a realidade com suas mãos, servindo-se dela, pois acredita que, ganhando o mundo, conseguirá ganhar-se a si próprio. Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio. Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo na sua libérrima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua gratuita inutilidade. O começo da sabedoria consiste em perceber que temos e teremos as mãos vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo. Neste momento, a solidão nos atravessa como um dardo. É meio-dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma. Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o preço do encontro, do possível encontro com o outro. A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho do homem que merece o seu nome.”
- Acredito muito nisso…
- Nossa, eu também!
- Cara, tudo isso vai resultar em algo muito bom no futuro… Uma relação foda e sincera com alguém, um trabalho que lhe dê prazer… Sei lá… Eu acredito que esse sofrimento todo tem propósito.
- Espero muito que sim… Acredito que sim… Mas aí entro num paradigma: Não sei se quero dez anos de glória por cinquenta de inferno na terra.
- Inferno não é exagero? Eu acho que temos uma vida muito boa, na verdade, cara. A questão é que o ser humano é intrinsicamente triste… Todo mundo tem um vazio absurdo… Algumas pessoas, não é nosso caso, maquiam isso com religião ou outras fantasias… Nós tentamos maquiar com música, drogas, amores, amigos… Mas no fim é tudo inútil… O vazio permanece lá… É foda mesmo.
- Então!!!! Aí volta pro meu pensamento! Somos masoquistas!? Pra que?
- Mas o que seria de nós sem essas inutilidades?
- Exatamente! Porque temos que ser algo? E se elas são inutilidades, são inuteis! Não são necessárias! Se não somos… E se não precisamos de nada… Não existe razão para existirmos!
- Nossa, você chegou no ponto culminante… Precisamos conversar isso num bar… Tá ficando bom
- Ou será que elas são necessárias para não nos sentirmos inúteis… É tipo criar o belo e o feio… Um não existiria sem o outro
- Acho que não tem razão nenhuma mesmo… Mas eu não abriria mão de alguns prazeres… Eles são inúteis, mas porque as coisas tem que fazer sentido? Vivemos numa sociedade babaca que quer colocar esse sentido pra maquiar o vazio: seja um profissional competente, pegue as minas mais gatas, tenha o carro da moda, seja bonitão… É um artifício pra esquecer o quanto a vida é sem sentido… Se vc entra nessa se fode… A vida vira uma competição… Prefiro ficar na minha, ler meus livros, escutar minhas músicas, beber com meus amigos e construir relações verdadeiras com as mulheres que realmente me interessam… Sem pose… Sem esperar nada…
- Você tem razão. Eu ainda me sinto muito preso à muita coisa… Estou aprendendo agora a me desprender.
- Você está melhor hoje?
- Não, cara. To até com dor no peito. To até pior que ontem
- Ai, meudeusdocéu…Vai ficar tudo bem, vai passar, cara… Força
- Eu tenho força, mas continuo triste. Não é possível que não exista uma saída para o trabalho
- Essas coisas são assim mesmo, é foda…
- Então porque a gente continua querendo viver isso? O ser humano é masoquista. Eu não sou nem um pouco. Aí tem uns caras que se suicidam… E dizem que eles é que gostam de sofrer, de doer. O que é toda essa dor? …O que é a verdadeira tortura? E então eu chego à conclusão que o ser humano realmente é masoquista. Porque inventaram a religião para terem medo…Que é outra dor. Porque não o fazem por causa dos outros, e não por sua própria causa. E eu sou como eles… Como nós
Não me olha assim
Com olhos seus
Exigindo uma explicação
Sobre algo que você criou
Pra depois vir
De véu rancor
Descontar uma invenção
Que não se sucedeu
Vem, pede pra mim
Desmentir um desacontecimento
Mas não fui eu
Tim tim por tim tim
Lhe remeto notícias de mim
Em vão
Não faz assim
Prometo dizer a verdade
Mas, pra você, a verdade só mente a verdade
Pra mim, nada mais que a verdade
O menino era um qualquer
mas entrou na peça da escola
A menina, do balé, desde mais menina
Recital no mesmo dia, e eram irmãos
Papai acorda, mamãe acorda
Tem bilhete na geladeira
Preso com imã de fruta amarela
Um bilhete, do menino, que dizia:
“Mamãe e Papai,
[com letra maiúscula]
Vem ver eu na escola
Tem apresentação
Leva a máquina fotográfica
Pois se não vier, vai ver”
O outro, mais singelo, reforçava:
“Mamãe e Papai,
[também com letra maiúscula]
ele é bobo
vem ver eu”
Deram as mãos, os pais divididos
Olharam-se, e voltaram a olhar para o imã
De fruta amarela
A mãe pegou uma banana
Sugeriu
Subiram as escadas
Fizeram outro filho
sabe aqueles dias?
não “aqueles”, como “aqueles” das mulheres
só Aqueles, com o “a” maiúsculo
e a vontade minúscula
então…
Ela está sentada ali
A me fitar, a me medir
Mede um relógio, mede um anel
Não cansa de perguntar com as mãos, com a boca muda, com o olhar
Se tem moeda, se tem trocado
E eu fingindo estar ocupado
Levanta-se então bem depressa
E um roto que lhe cobre a testa
Balança na brisa e avisa da dança
Pros bolsos da minha camisa
Faço que esqueço, faço um protesto
Mão no volante, outra na testa
Enxugo as sobras de consequência
Isso é obra da consciência!
Apanho migalhas brilhantes
Do bolso direito
Do jeito errado
Estendo a mão
Sou quem convida
Quem anuncia
Mais uma gota
De sub-vida
À alma-ida
Assumo a dança, e eis que então
Se aproxima com a cobiça em cada mão
Nas unhas sujas, na carne suja, na boca suja:
-Valeu, patrão!
E com as pontas dos dedos
Bem devagar
Afaga meu retrovisor esquerdo
Entristece o olhar
Num segundo inclina a cabeça
Estende sua mão para dentro
Apanha uma nota depressa
O farol desamadureceu
Eu me vou, cercado de breu
E enquanto me afasto
Eu noto no asfalto
Que os brancos dos seus olhos
Refletem no óleo da rua
No alto, na lua
Nem lembram que um dia existi
E enquanto me afasto
Eu noto no asfalto
Que os brancos dos olhos
Refletem o álcool
E o salto pro alto
Pr´além do real
Tô passado com o que está por vir
E meio que morri
O filho de 4 anos chega correndo do quintal do consultório do otorrinolaringologista que já atende a família há décadas. Cadarços desamarrados, ele adentra a porta de vidro alegre e saltitante, ruma para o sofá, onde seu pai e sua mãe aguardam lendo revistas velhas de celebridades ou náutica, alternadamente. Com a sinceridade que a infância lhe confere, o garotinho desata a falar:
- A mamãe é linda! A mamãe é bunita! A mamãe é bunita! A mamãe é a mais bunita di todas!
Meio sem graça perante os demais pacientes que aguardavam na mesma sala, a mãe gira a cabeça fazendo um apanhado geral de sorrisos amarelos, como se dissesse “hehehe, me desculpem” e, ao mesmo tempo, vistos de outro ângulo, estes mesmos sorrisos diziam orgulhosos que “é meu menino”. O menino continua a vangloriar sua progenitora:
- A mamãe é bunita! A mamãe é muito bunita!
O pai entra na brincadeira e pergunta igualmente sorridente, sem constrangimento, como se conhecesse a natureza de seu filho:
-Tá bom, filho, o que você quer agora? Fala pro papai e pra mamãe!
O menino feha a cara, dá meia volta, e volta a brincar no jardim. Os pais ficam sem graça.
Chegou mancando, adentrou na sala do Doutor. A cada passo, segurava um gemido, mas era forte e resistente. Sala de espera…
Espera,
espera,
espera,
- Senhor Gonçalves! – chamou a secretária – Pode entrar. O Doutor o aguarda na sala ao lado.
Agradeceu, como faria qualquer pessoa menos educada diante de tamanha simpatia. Levantou-se calmamente e andou coxo em direção à tal sala. Abriu a porta já foi entrando, mancando um pouco mais acentuadamente – como quando se está com vontade de ir ao banheiro e, à medida que se aproxima do urinol, a vontade cresce. Sentou-se. O Doutor palitava os dentes, estava meio sujo, umas manchas pretas na roupa azul, barba por fazer. Até aí, normal.
- Vamos ver, vamos ver, senhor…senhor…
-Gonçalves. Senhor Gonçalves – remendou.
- Era isso que eu queria dizer. Então, Senhor Gonçalves, conte-me o que passa na sua perna.
- Então, doutor. Eu estava caminhando na calçada, mas o trânsito era tanto que as motos cortavam por ela, e aí uma delas me atingiu. Acho que soltaram algumas peças.
- Hummm, nada que um apertozinho não resolva.
Pegou a chave, a graxa, o óleo, e puxou papo com o paciente enquanto atarrachava:
-Correria hoje né, estou fazendo jornada de 20 horas, comprei aquele sistema de injeção eletrônica de alimentação que resolveu meu problema. Agora posso atender muito mais gente. Parece que esse mundo não para de evoluir, né?
- Não sei não, viu, Doutor! Eu tenho um humano em casa que, esses dias, deu maior trabalheira. Estava com uma tal de doença do mundo. O mecânico disse que era um tal de estresse.
Se você quiser
Eu posso não gostar do Rio
E posso não querer o frio
Mas também posso, se você quiser
Se você quiser,
Posso achar um cachecol
Para usar quando faz sol
Também não posso, se não quiser
E você vai ver
Me desmereço por inteiro
E posso, cego, até achar
Uma flor pelo seu cheiro
Vai ver
Desapareço em meu enterro
Para esperar velar-me só
Com uma flor e um grande erro
Se quiser carinho
Posso fazer devagarzinho
Te agarrar pelos cabelos
No escurinho, nu em pêlo
Ou sob a luz do luar
Te fazer berrar meu nome
E sussurrar um “eu te amo”
Enquanto o sono te consome
Mas não me peça
Pra largar meu violão
Que eu morro de promessa
Pois não vivo sem canção
Por favor não peça
Pra largar o violão
Pois que a vida emudeça
Mas não vivo sem canção
Sorvido
Expirado
Entorpecido
Entorpecente
Sente? Em torno?
Vida revolvida
Ré, volvida, ré, volvida, ré
Volver
Revolver, revolver
Revólver
Vida resolvida
Sorvida
Só vida
Sol! Vida!
Seu nome fala por si só
Sua história não tem dó
Tempos frios, violentos
Tempos mancos, lentos, francos
Quando o vento não levou o peso desse documento
Que tatuou em sua pele branca
Uma sina e uma idéia de Bianca
Seu mundo é seu
Seu hino é meu
E ela é fria, violenta
E ela é franca, e venta, é tanta
Senta e se levanta teses tantas
Que não conta a ninguém
Nem sequer quando é amada
Só encanta a tal menina
Essa Bianca
Ninguém tem o cacife pra entender
Ou pra furar esse recife de corais
São tão bonitos seus florais
Que tanto fito
Essa esfinge guarda uma cidade
Inteira em sua mocidade
Ela nem sabe seu tamanho
Ela nem cabe em sua manha
E amanhã o tal clichê: “Decifra-me ou te devoro” sairá pelos seus poros
E entrarei nas profundezas brancas
Onde ouve-se um sussurro
Que canta meu nome
Bianca
Cada dia adia um dia
Que veio antes
Cada dia adio um dia
E todo dia é dia “d”
O dia que é adia
O dia que foi, nostalgia!
O dia que vem seria
E depois fica na memória
É só despir a fantasia de agonia
Despedir-me da saudade, do futuro
E viver cada dia
Adiós!
Uma vez me disseram que é só quando você cresce que consegue perceber certas coisas. Eu digo perceber, e não apenas ver, porque perceber é muito além de ver; é condoreiro e seleto ao mesmo tempo; é sentir e dizer; é inconstitucional, inconsciente e inerente a qualquer tipo de intempérie. Uma vez me disseram que só quando se chega à tenra idade é que se pode perceber quem são seus amigos. Só quando se atinge a maturidade fraterna que se percebe que os guerreiros que lutam do seu lado da trincheira são os que – mesmo não se preocupando com você em alguns momentos, por ter, nestes curtos espaços de tempo e espaço, alguma preocupação que apenas lhes dizem respeito, que são pessoais – sabem que você está lá, ligam para dar um “alô”, e são dignos de seu amor incondicional e eterna gratidão por suportarem suas dores.
E uma vez me disseram que uma das pistas da verdadeira amizade é aquele momento em que você e seu amigo estão fumando um cigarro, cada um pensando nas suas coisas, cada um preocupado com suas preocupações, onde nenhum som pode ser ouvido por um intervalo de tempo sem um valor fixo por nenhum dos dois interlocutores, não há constrangimento. E você acaba primeiro o seu cigarro e cede o cinzeiro para que termine o dele.
Hoje creio ter chegado à tenra idade. Me disseram que, no futuro, eu poderia contar nos dedos quem seriam meus verdadeiros amigos, e hoje vejo que tudo o que disseram é como uma espécie de dogma da amizade. Espero conhecer pelo menos mais alguns para completar a mão que falta.
Amo vocês, meus amigos.
Eu e a Maria
Eu amaria
Como recitar uma poesia
Amargaria
Ao mar daria todo o meu penar
Todo me entregaria
Minh´alma daria a ti
Se sinhá mandaria eu vir a ti
Entre minha alegria
Entra em mim agonia
Em ti, sim, há poesia
Para que ainda haja um samba
Pra uma tal de Maria
Entre minha alegria
Entra em mim agonia
Em ti há sentimento
Para que haja algum momento
Que, pra mim, seja dia
Cá estou
Como o mundo
Devastado, tentando respirar
Ex
Pirar?
Cá estou
Como o mundo
Explodindo aqui e acolá
In
Terno?
Cá estou
Como o mundo
Contente por ainda me preservar
Con…
Tento?
Cá estou
Como o mundo
Cheio de combustível nuclear
Há
Postos?
“Ter” virou mania
“Ser”, claustrofobia
Sou um interruptor
Exquisito
Esquecido
E vivo
(In) feliz?
(In) sensível?
Às vezes fico pensando como ficam pensando que nos despedimos do mundo. Às vezes uma fatalidade pode arrancar uma vida, um filho que passa pela porta e nunca mais volta, um avião derrapa na aterrisagem, uma vela que apaga antes da hora. Ou não se apaga, cai no tapete acesa, e o bebê está dormindo.
Imagino como fica uma mãe que acabou de brigar com esse filho; um pai que acabou de se recusar ir assistir ao bebê para velar seu sono; um casal que acabou de terminar o relacionamento pela distância, e ela está voltando para seu país com uma passagem só de ida. Esse é o problema. O problema é quem fica. Uma culpa que não os pertence vai possuir seus corpos e suas almas de forma incomensurável. Uma culpa que é a verdadeira culpada, por simplesmente existir.
Aos que escrevem, resta uma luz. É como uma indulgência eterna – enquanto dure. A estes, que ousam tornar estáticos sentimentos que nem ao menos se sabem cíclicos, que utilizam símbolos para substituir dores, onde a dor e a felicidade é simbolizada por palavras vis – e muitas vezes rebeldes-, resta sempre se despedir. Não é justo, mas é o que se pode fazer. Os americanos não têm a palavra “saudade” em seu dicionário. Os escritores americanos não sentem saudade?
Para que, quando o mundo não suportar mais a minha raça, tudo se dissolva, recomendo a todos que, sempre que escreverem, soarem tristes. Sempre uma despedida. Será que qualquer espécie de registro deveria sempre conter uma mensagem de adeus? Ou um pedido de desculpas?
O ser humano fica mais inteligente quando fica quietinho, meditando, porque ele cresce por dentro. Essa história de modernização e tecnologia só estraga tudo. O ser humao cresce mais e evolui quando não se mobiliza para tornar o mundo melhor para viver. Às vezes o melhor para o mundo é o próprio mundo, e não o ser humano.
Eu quero uma lágrima para cada árvore derrubada. Eu quero que, para essa foz de choro, um raio solar que atravesse o maior buraco da camada de ozônio faça evaporar toda essa água.
A metade que foi para o céu, quero que caia sobre cada ex-árvore, fazendo-as renascer, crescer, e que todos os primeiros chorões se emocionem novamente, para que sempre chova e nasça mais e mais árvores. Quero também que todo o sal decante nos oceanos, e que cada grão caia dentro de uma concha.
Quero que cada uma dessas ostras faça a mais bela pérola de sua vida, e que as marés as levem para as mãos de quem merece – e precisa. Quero que hajam tantas pérolas para que o próximo astronauta que ousar dizer a cor do meu planeta alegue que ele é cintilante como a Lua. Aí saberei que, na verdade, para o meu contentamento , a Terra está tão cheia de vida como o brilho da Lua.
Quanto ao buraco, quero que fique lá. Ao menos servirá de lição. E para a Lua poder ver de camarote o meu sonho.
Desce a ladeira
Pois tá sem eira nem beira
Bate toda essa poeira
Ainda é segunda-feira
Cai a tardinha
Toma todas, vai pra casa
Bate o carro na pracinha
Já tá expelindo brasa
Pega um cigarro
E o maço tá sem cigarro
Fumou tanto, deu pigarro
Tosse tanto
Sai catarro
Chega uma carta
Com uma ordem de despejo
Faz um último desejo
Olha pra cima e infarta
(10/05/2006 – E ainda persiste)
Levo café na cama e você diz que não come mamão
Durmo no pé da cama pra te proteger como seu cão
Tenho que comprar jóias pra te deixar louca de tesão
Sirvo de bode expiatório dessa nossa relação
São tantas negligências como a blusa ainda sem botão
À noite noto sua ausência ao meu lado no colchão
Te vejo andar na praça de mãos dadas com um capitão
Pra consolar cometo adultério com meu violão
Tenho meus hábitos
Meus jeitos
Minhas coisas, manias
Tenho meu hálito
Meu peito,
Minhas prosas, melodias
Tenho atitude
Amor próprio, orgulho
Tenho minha idade,
Meus átrios, ventrículos
Pulsantes
E veias
Tenho veias
Forradas de vida, de gente, de histórias
Em cada uma transbordo células e organelas
No meu DNA está escrito
Em cada gene, como estou
Como sou, como penso
E por isso, neste momento,
Estou simples
Não composto
E o cross-over?
Tuinha
Tu, ´inda fazes “nhé”
Tão claramente
Tão francamente
Tão “inha”
Tuinha,
diminutivo gracioso de ti
De tu, pequenina
Grande Tu – inha
Se tu vinhas
Com cores das minhas
Aromas
De tulipinhas
Ficaria todo lambuzado
De flor e carinhos
E se tu vinhas
Com sabor
De uvinhas
Com asas
De andorinhas
Ficaria todo colorido
De tintas vinhas
De vinhos tintos
De tantas que tinhas
Tuinha
Que diferença faz
Se amar se conjuga igual chorar?
Pílula poética
Duas vezes ao dia
Eita, menino arredio
Olha o frio! Olha o frio!
Dá prá ver o arrepio
Olha pra elas
Pois nelas, canelas magrelas
Está o teu retrato
Sua pele infantil
Veste este olho senil
Sujeira na cara
Repara na craca
Que agora só dá pra tirar
Esfregando bombril
Pegue sua bola
Ganhe sua esmola
Põe na sacola
Pressa, que nessa remessa de carro
Cê pode, com sorte
Arrumar um cigarro
Cuide do seu troco
Sabes que é bem pouco
Tá ficando Louco
Trabalha, só rala, se cala
Senzala pra quê?
Pra dar pra mãe
quero você
só você
só pra mim
só pra sempre
sou assim
sou a gente
só assim,
de repente
sem ter fim…
o problema
é que não sei
quem é você
isso é uma pena.
Que é que tu tens que tu cresces quando cutuca tua cútis com talco? Tão contente, quase crente que eu, carente, cruze causos entre a gente. Quase que eu te quero toda quente com tempero e pasta al dente, quase que eu te ponho em mente, de corpo presente.
Pode parar de por dó e pena. Drena o pó, drena o palpitar, drena a dor, pode parar de pirar. Pressa com paródias pulhas, olhos molhados, filhos e falhas, fagulhas e talhas. Tome tento, vista a roupa, tiro a estopa da boca e grito: “Garota Louca”. Não minimize minha manha “menos mãe, menos tamanha”, que amanhã a manha não nana, a manhã não amana, e a dama ama. E eu ruim e rasgado, roto, esfarrapado, rasgo o roto, rôo a gosto, degusto, dele gosto, encosto, e morro-te em mim, forte. Ruim de morte!
Cinza. O inverno é cinza. Mas tão belo o inverno se faz ao ser acinzentado. E acinzentado já virou até qualidade de gente mau humorada, fria, cinza. Não sei porque. Gostaria de ser chamado Cinza. Uma paisagem não precisa ser necessariamente cinza para que a vejam cinza. Isso depende das cores de cada um. Ontem, para mim, uma árvore florida bem verde, acompanhada de um céu azul sem uma nuvem sequer me pareceu tão cinza. Emocionante. Acho que cinza é uma temperatura, e não uma cor. Um estado de espírito, onde as coisas materiais são simplesmente belas, e não importantes. Onde tudo e todos estão apenas bem consigo mesmo, e, portanto, chuvas torrentes e sóis primaveris são apenas para serem admirados. Toda e qualquer forma do seu campo de visão é uma exuberância a mais para se apreciar, apenas. O ser assume uma neutralidade sem par. E acha beleza até mesmo na mais acinzentada das pessoas. Para mim, isso é ser cinza. O azul deveria ser cinza.
As flores têm espinhos. Fácil. Nem tudo é perfeito. Nem tudo são flores. E até o que é flor pode assumir cuniformas e espetar, incomodar, ou persistir, como bem quiser o bom entendedor.
Uma delicada mudança de estrutura, porém, pode fazer valer um novo sentido para muitas explicações. Procurar achar uma qualidade no meio de determinadas situações é nem sempre uma tarefa fácil, mas se faz necessário à medida que o ser humano procura motivos – às vezes os mais fúteis – para explicar-se; e à medida também que se há feitura de forças epopéicas para acreditar na mais frágil argumentação.
É preciso ter motivos para viver, infelizmente. É preciso que esses motivos causem prazer, por menor que seja, por mais que façam o indivíduo durar apenas alguns instantes a mais. Contudo, por mais breve que seja a explanação, por mais cabeluda que seja a autoconvicção – não que me faltem bons argumentos para que não o seja – cada um desses amortecedores de mente são como uma flor. É uma esperança que manda no subconsciente e o faz acreditar que a sarjeta da vida têm uma saída. É uma esperança. Sujeito esperançoso esse ser humano.
Como já disse, uma delicada mudança de estrutura, sim, pode fazer valer um novo sentido à muitas explicações. Às vezes, são os espinhos que têm as flores.
Uma flor de cacto. É exatamente a imagem contrária daquele ditado “Até as flores tem espinhos”. É comum dizer que sempre existe algo de ruim, um porém. Fascinado com a imagem de uma flor de cacto, percebi que o contrário não só é real como é também natural, em uma interpretação inversa do ditado popular.
Engraçado o ditado ser tão popular e o inverso tão desconhecido. Quando se está na fossa, por que não se suicida? A resposta é que todo o ser humano é dotado de esperança ou de uma crença – por menor que seja – de que as coisas vão melhorar. Essa crença funciona como a flor. E tudo isso é apenas uma tentativa minha de entender, por exemplo, a felicidade na pobreza e na miséria, de entender porque a gente persiste em coisas que temos praticamente certeza que não vão dar certo, ou até mesmo o porque de eu usar a palavra “praticamente” enquanto tento explicar isso. A certeza nunca é absoluta.
Somos ilhas de esperança em meio à desolação. E não o inverso. E vem a metáfora: não são as flores que também tem espinhos, são os espinhos que têm as flores. E isso não é apenas isso. É muito maior. Porque existe a imagem da flor de cacto, mas existe também a do cacto na praia, cercado de água. Uma coisa englobando a outra, e fazendo a teoria se inverter a cada olhar mais abrangente tomado pelo observador.
I am calm just like a swan feather falling while a waltz is being played by a violin…lá lá lá
Escrevo para um amigo, não me importando com medição de palavras, não me preocupando com métricas, com paralelismos, metáforas, hipérboles. Pode ser que hajam ou não. Mas, se houverem, serão verdades:
São raras as pessoas raras, mas, uma vez raras, são mais pessoas ainda. Você é uma pessoa rara. E sua extinção privaria um quarto do mundo, esses que lêem o que escreve sobre verdades sensíveis aos seus olhos, de vê-las da mesma lúcida maneira que o senhor seu lápis, ou que o seu senhor lápis o faz. Ele tem retinas como as suas, porém, não usa óculos. Contudo, outros três quartos não devem ler. Afinal, a única maioria que ainda nos pertence são nossos próprios três quartos que compreendem o que somos. Ou não. Talvez essa maioria apenas exista em você, e apenas exista para uma prosa e um verso prosear e versear com força de uma maioria, para cegar seu um quarto de certezas e mentir para o mundo um quase inteiro. Um grande beijo do seu amigo.